A intenção da criação deste blog se fez perante a necessidade de uma discussão séria sobre um dos gêneros mais polêmicos de todos os tempos dentro do metal, o black metal.
Este estilo tem particularidades ideológicas, filosóficas e musicais, que o distinguem de outras vertentes do metal.
Além disso, será debatido os vários subgêneros dentro do Black Metal para buscar compreender o porque destes diferentes rótulos, tais como pagan, atmosferic, NSBM, entre outros.
Por fim, serão postados entrevistas, álbuns e vídeos de bandas relacionadas ao estilo, assim como texto de grandes pensadores que influenciaram o Black Metal como um todo.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Miasthenia - Supremacia Ancestral, a história não contada...












            Um dos pilares do Black Metal brasileiro e principal fonte pagã na música extrema nacional. O Miasthenia chegou a um patamar bastante elevado tanto na parte musical quanto na parte lírica com extremo profissionalismo aliado ao espírito underground que continua queimando depois de mais de 20 anos de existência. Atingir um nível alto de profissionalismo costuma ser um problema se tratando de música extrema pois existem inúmeros exemplos de bandas que evoluíram bastante na parte instrumental e com isso foram perdendo um pouco ou quase toda essência de suas músicas. Com eles foi o contrário, pois conseguiram usar a técnica para expressar mais forte ainda o sentimento dedicado pela banda a arte extrema e ao paganismo das Américas.

            Sonoramente o Miasthenia vem se tornando extremamente técnico e mais brutal a cada album e este pra mim é o ápice, melhor album da banda...sem desmerecer os outros clássicos mas é só escutar ele pra ter noção.  Em Supremacia Ancestral a banda fez uma enorme colaboração não somente para o underground como também para a História de nosso continente. Pois o encarte do cd vem com 2 páginas dedicadas a história verídica de cada música, todas sobre resistências dos ameríndios a colonização e cristianização das antigas culturas. É um trabalho que se fosse lançado com um livreto A5 ficaria demais, tendo espaço para ilustração de cada música junto a sua história.

            Assunto esse que o sistema esconde de nós desde o início em aulas e livros escolares, ressaltando sempre uma visão de glória européia e cristã da situação toda. Como se houvesse uma descoberta de um novo mundo e que os nativos desse mundo foram salvos por uma cultura  superior. Eles retardam nosso aprendizado numa tentativa de modificar a história real e acabam conseguindo na maioria das pessoas conformadas e de pouco questionamento.

            É o tal da “história é contada pelos vencedores”, mas esse tipo de vencedor que distorce tudo a seu favor é um mero vencedor bélico e um verdadeiro perdedor em questão de moral e espiritualidade. Pra mim os únicos vencedores nessa situação toda foram aqueles que lutaram por suas crenças, família e seu território mesmo que isso tenha custado a própria vida. Então escondendo o lado honrado do povo verdadeiramente guerreiro é uma “bela” de uma ferramenta de manipulação, pois se tira a honra de um povo que perdeu uma guerra não sobra nada e isso é o suficiente para manipular a massa que em sua maioria não faz o mínimo de esforço para questionar o que lhe é enfiado pela guela abaixo.






Arte feita por Latuff, retirada do site Geo-Metal





            E essas informações contidas no encarte foram buscadas em documentos da época que são pouquíssimo divulgado.  As letras são elaboradas pela vocalista, tecladista Hécate, que também é fundadora da banda, é uma profissional na área de história.

            Em uma entrevista ao site Criado Mundo ela fala mais detalhadamente sobre sua relação profissional com a banda:



Anderson:  Hécate, por favor, você poderia falar do seu trabalho acadêmico e de como ele se relaciona com a temática tratada pela banda?

Hécate – Sim, eu fiz mestrado (2000) e doutorado (2006) em História da América, analisei crônicas espanholas escritas nos séculos XVI e XVII sobre os Incas do antigo Peru. A análise e “desconstrução” de discursos colonialistas e demonológicos sobre as diferenças confrontadas na América é parte de minhas preocupações ideológicas pós-coloniais e que de fato estão ligadas à proposta temática do Miasthenia. Mergulhei nestes estudos em busca de uma “história do possível” que revelasse outras formas de entendimento do sagrado, da história, da natureza, do corpo, das identidades e relações entre os sexos, diferentes do ponto vista cristão colonialista que tendeu a ocultar e desclassificar tudo o que parecia ameaçar o poder e a ordem política e social dos colonizadores. Já que estavam interessados em apagar toda e qualquer crença ou visão de mundo pagã que colocassem em questionamento os preceitos e moralidade cristã.












Deuses da Aurora Ancestral:


Nos séculos XVI e XVII a América conheceu, em toda parte, casos de profetas xamãs que anunciavam a derrota do deus cristão e o retorno dos antigos deuses, o que resultou em algumas manifestações de ódio e revolta contra a ação missionária cristã. Os seguidores das antigas religiões e filosofias pré-colombianas foram perseguidos e condenados pelos inquisitores e extirpadores das idolatrias. No entanto, a História Oficial ocultou durante muitos séculos essa resistência ameríndia à cristianização, enaltecendo os missionários e conquistadores que desembarcaram na América. Este álbum narra Outras Histórias, baseada em documentos coloniais, onde o esplendor das civilizações e tribos pré-colombianas permanece vivo na memória, exaltando a honra e o espírito bravio dos guerreiros que resistiram à cristianização.



Exortações de Ocelotl:

Em 1530 no México, o bispo Zumárraga os perseguiu com poderes inquisitoriais. Martin Ocelotl (jaguar) protagonizou uma das mais celebras causas desses primeiros tempos, e foi acusado de idolatria de feitiçaria junto ao Santo Ofício. Ocelotl dizia ter sido o único sobrevivente da matança ordenada por Montezuma que, desgostoso com os presságios sobre a vinda de Cortez, resolvera punir todos os adivinhos astecas, Ocelotl renegou o cristianismo e iniciou uma pregação contra os padres. Por onde passava dizia que a humanidade estava sendo destruída pela chegada dos “apóstolos de cristo” (=franciscanos). Se “apóstolos monstruoso haviam derrotado o “sol asteca”, ele, Ocelotl, venceria o “sol franciscano” anunciava o profeta, insistindo para que os astecas renegassem o catolicismo. As exortações de Ocelotl se concretizaram em uma seita anti-cristã que celebrava os ritos em pro de Camaxtli e fazia sacrifícios ao deus Tlaloc.



Taqui Ongo:

O movimento conhecido como Taqui Ongo surgiu no Peru central durante os anos de 1560. Era uma seita organizada e hostil à presença dos colonizadores cristãos. Taqui significa “canto” ou “dança”, na língua quéchua, enquanto ongo se refere a “enfermidade”. Para os cristãos era sobretudo uma heresia, na qual os povos andinos renegavam o cristianismo e retornavam aos deuses antigos; para os adeptos, tratava-se antes de tudo de uma cerimônia, a “dança da enfermidade” ou “enfermidade da dança”, a ritualização da tragédia dos antigos deuses que estavam a vagar abandonados pela falta de sacrifícios e oferendas rituais de outrora. Sacerdotes percorriam as aldeias, a modo de xamãs, e anunciavam a chegada de uma nova era, tempo em que os conquistadores e seu deus seriam expulsos da Terra, entronizando-se em seu lugar as huacas, divindades ancestrais. Possuídos pelas huacas e xamãs prediziam sua vitória em meio aos cantos e danças da multidão.



Tawantinsuyo:

Em 1537 surge o império neo-inca, na inacessível região de Victos. Refúgio de parte da dinastia incaica que não se curvava à dominação colonial, este reino foi o bastião maior da resistência ao colonialismo e cristianização do Peru. Ali se restauraram o culto solar e a divinização do imperador inca, da lua, múmias imperiais e das huacas. Os incas de Vilcabamba pregavam abertamente contra a religião cristã e a opressão colonial. O inca chegou a massacrar certas aldeias e a destruir huacas de povos que haviam aderido ao cristianismo. Até o ano de 1572 o império neo-inca moveu guerras contra os colonizadores.












Tzompantli (instrumental):

Os antigos mesoamericanos tinham o costume de decapitar as vítimas dos sacrifícios humanos e conservar os seus crânios empalados no Tzomplantli, um altar de pedras e troncos de madeira para a exibição pública das cabeças dos prisioneiros de guerra. Em honra aos deuses o Tzomplantli representava uma manifestação do poder bélico e do espírito guerreiro em tempo pré-colombianos.



Guerra de Mixton:

Entre 1541 e 1542, na Nova Galícia (norte, costa do pacífico) especialmente no vale do Tlautenaugo, os xamãs anunciavam a vinda de Tlaloc e de todos os ancestrais ressucitados, pregando o expurgo dos costumes cristãos, dos sacramentos e uma luta contra os cristãos. Os que perseverassem no catolicismo seriam privados da luz do dia e devorados por bestas ferozes. Oss que retornassem às tradições dos antepassados e fossem à guerra recebiam a ajuda de Tlaloc. Incendiaram igrejas, destruíram cruzes, mataram missionários e chegaram a obter vitória na luta defensiva contra a repressão colonial cristã.



Idolatrias:

No século XVII, na região das missões jesuítas do Ria da Prata, os xamãns guaranis, empenhados em valorizar as divindades ancestrais, encarnavam os homens-deuses da mitologia guarani. Percorrendo as aldeias, falavam como o antepassado mítico, Nhanderuvuçu, o senhor da morte, prometeu salvar os guaranis das garras dos missionários. Alguns organizaram seitas, a exemplo, do santos óleos. Em 1645 Nheçu chegou a ter sua própria igreja apostata onde sacrificou exemplarmente dois jesuítas capturados nas missões.



Kayanerehn Kowa:

No início do século XVI surge a Kayanerenh Kowa, a grande aliança das cinco sombrias tribos guerreiras iroqueses. Entre eles se destacavam os Mohawks. Em 1625 um grupo de jesuítas tentava evangelizar essas tribos norte-americanas, mas os iroqueses resistiram ao evangelho durante séculos. Em um episódio os iroqueses invadem com violência a aldeia onde estava o padre Jean de Brébeuf e o submetem a uma longa e agonizante série de torturas. Vendo que entre os tormentos o padre não cessava de exortá-los e clamar pelo seu mísero deus, os iroqueses lhe abriram o peito e arrancaram-lhe o coração palpitante, finalmente beberam-lhe o sangue. Os padres Jogue e Juan de Lalande tiveram suas cabeças cortadas e empaladas ao redor da aldeia Mohawk e seus corpos foram jogados no rio. Denominado pelos Mohawks como o “Hábito Negro”, o intruso veio pregar a luz, se vê envolvido nas trevas. No meio desses tormentos, o herói mohawk cantava de maneira bárbara e heróica, a glória de suas antigas vitórias, cantava o prazer que sentiu outrora imolar seus inimigos.




Formação Supremacia Ancestral: 

Hécate: vocal e teclado
Thormianak: guitarra
Mist: baixo
Hamon: bateria

























Imagem do encarte do album XVI (2000). Foto editada e tirada por Susane Hécate em Sacsayhuamán (Cuzco) no Peru em 1997. Uma "fortaleza cerimonial" dos Incas, constuída entre os século XV e XVI, na época de seu apogeu.






Vídeo do lançamento de Supremacia Ancestral:






Exortações de Ocelotl:





Taqui Ongo:







Download Miasthenia - Supremacia Ancestral ( com autorização da banda, já que o álbum  está esgotado):

http://www.4shared.com/rar/CL1o4QAR/miasthenia_-_supremacia_ancest.html



Busque sempre obter o material original, o novo álbum Legados do Inframundo ainda está disponível nas gravadoras que lançaram o álbum:

www.misanthropic.com.br

www.mutilationrec.loja2.com.br







Deserto de Azazel






sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ocultan - Nexion Chaos












            Lançado em outubro de 2015, Nexion Chaos chega entre os melhores dos últimos anos em escala mundial. Se acha que estou movido por empolgação ou qualquer outra coisa, basta escutar o álbum e verá com os próprios olhos. Após um período de uma leve mudança no estilo musical, adicionando doses de death metal ainda no álbum Profanation, chegando em Regnum Infernalis com um legítimo black/death com influências do antigo Sarcófago e companhia, o Ocultan veio retornando as raízes em Atombe Unkuluntu, não só musicalmente como também nas letras em português de algumas músicas.

Característica que para mim nunca teria mudado visto que a banda foi uma das pioneiras em praticar Black Metal 100% linguagem nacional e que cai muito bem a sua sonoridade junto a temática, já que a quimbanda é um culto nacional de satanismo e mesmo que suas raízes estejam na África e tenha também outras influências, foi aqui que ela se manifestou. Mas isso só diz respeito a banda e por isso respeito suas escolhas mesmo não concordando.





Lady of Blood, Count Imperium, Kazoth Bey, Mallus


           




            Em Shadows from Beyond já ficou mais claro a volta as raízes pela timbragem mais suja , abafada e de rifes estridentes. Em Nexion Chaos foi uma grande evolução desse processo. Assim como no anterior Count Imperium está nos vocais, mas a bateria ficou por conta de Malus. Kazoth Bey no baixo e como de costume Lady of Blood nas guitarras mostrando grandíssima evolução. O álbum traz na capa uma belíssima arte de Exu Asa Negra feita por Allan Luiz Rodrigues. Lançado pela própria gravadora da banda Pazuzu Records em parceria com Nyarlathotepe records e Ihells Productions.




Arte feita por Allan Luiz Rodrigues
Exu Asa Negra




















            O Ocultan é uma banda que atingiu um nível de originalidade como poucos no mundo. A começar pela inovação da temática até antes nunca trabalhada por outra banda. Sem contar a personalidade que tiveram ao enfrentar muitas críticas por tratarem da Quimbanda. Não sei bem o motivo por trás de cada crítica, se era preconceito por ser um culto com raízes africanas, se era por certas características exóticas do culto ou por ele ser demasiado “simples” com alguns nomes e palavras relacionadas nada “espetaculares” aos olhos daqueles que estavam acostumados a cultuar ou conhecer entidades e práticas satânicas tradicionais de outros continentes. De qualquer forma eram críticas infundadas que só começaram a desaparecer depois que o então respeitado e reconhecido mundialmente Jon Nödtveidt, líder do Dissection demonstrou grande interesse a quimbanda. Daí em diante parece que o complexo de vira-lata brasileiro começou a acabar.

            Mas sobre a originalidade, ela também é encontrada na sonoridade da banda. São rifes estridentes que despertam um grande sentimento de ódio e o clima da música é bem carregado e caótico, capaz de mudar drasticamente a atmosfera do local onde estiver sendo tocado. O clima é sempre de morte e muitas vezes a sensação é de estar em um cemitério cercado por catacumbas que se perdem no horizonte.







Para adquirir materiais originais da banda acesse:


            




     O álbum inicia energicamente com Exu Lord of Fire nos remetendo aos antigos clássico com uma pitada da fase Profanation adiante. Uma das poucas músicas que levam bastante metranca, diminuíram bem a dose de blast-beat mas sem comprometer a qualidade. A característica principal do álbum foi o nível técnico de entrosamento da banda que brinca com variações de andamento a todo momento, nunca visto com tanta maestria nos outros álbuns da banda. E são variações certeiras que conseguem complementar sentimentos de ódio independente do andamento, é um trabalho extremamente dinâmico dentro de suas características. O encarte traz a imagem de Exu Pinga Fogo junto a letra.

            Reino da Morte inicia com uma levada cadenciada cativante com um rife bem desolador, boas alternadas de vocais entre o rasgado e o gutural, em partes atuando juntos dando um clima bem destrutivo e assombroso. Sempre achei que essas passagens cadenciadas caiam muito bem a sonoridade da banda e que mereciam um maior aproveitamento, fantástico! De repente a música ganha a brutalidade mais característica do Ocultan e retorna com toda vontade naquela cadencia inicial. Que energia desgraçada! As variações são constantes e muito bem praticadas despertando a chama do caos ao ouvinte, não aconselhado aqueles que não tem o controle de si pois o sentimento é muito forte e pode te levar a comportamentos autodestrutivos,o Black Metal em geral é assim, mas algumas bandas conseguem atingir um nível de energia negativa muito alto...a exemplo o album Transilvania Hunger do Darkthrone. Reino da Morte está entre as melhores, não só da história da banda como do Black Metal mundial. Bate de frente com qualquer clássico europeu.

            The Essence of the Opposer é uma ode a libertação do mundo material e limitado, um mundo governado pela dor, angústia e submissão ao criador. E o verdadeiro conhecimento e liberdade estão além dessa camada material e superficial. Este é o entendimento transmitido pela letra. Ela se inicia com rifes ríspidos e brutos que parecem dilacerar parte do cosmos. Algumas cavalgadas e belas variações de bateria. Outra música que te remete aos antigos clássicos de Lembranças do Mal e companhia, só que com sonoridade mais complexas em relações aos primeiros trabalhos que mesmo mais simples possuem qualidade inquestionável. A música é marcada por uma passagem simplesmente magnífica onde são cantados os versos “We are the supporters of spiritual liberation” em vocais alternados.

            Mother of Chaos é uma música dedicada a Tiamat. Inicia com rifes um pouco diferentes dos tradicionais mas logo se acelera lembrando características de Atombe Unkuluntu e Shadows from Beyond. Algumas passagens lembrando Watain e isso se encontra em outras músicas do álbum assim como alguns toques do Dissection. Não sei se foi influência da banda mais tem uma parte que lembra muito o velho e bom Carcass.

            Tehom vem na linha inspiradora dos antigos clássicos e melhor ainda vociferado no português: 
“ Ao atravessar os portais de Tehom 
  As luzes das estrelas se apagam
  A vida chega ao fim
  O destino passa a ser traçado
  Pelas sombras da morte ...”.

Após um rápido solo a música entra numa cadência que evolui para um rife desgraçadamente foda versando:
“ Portadores da marca da serpente 
  Vagam eternamente
  Ceifando almas
  Encaminhando-as ao Gehinnom 
  Aonde são senteciadas
  Pelos mestres da sabedoria gnóstica...”

É por músicas como essa e Reino da Morte que não entendo porque não fazer novamente um álbum todo no português, mas esse é só um desejo de um apreciador e a banda merece ter suas escolhas respeitadas. Essa é uma daquelas que será lembrada como grande clássico do Black Metal nacional daqui alguns anos e que tenho a honra de poder estar ouvindo ainda fresca e fétida em seu nascimento.

            E por falar na diminuição de metranca no álbum cá se inicia numa porradaria a faixa Perdition que ficou muito boa. Todos estamos condenados a retornar ao caos primordial, nossa origem. Uma perdição para aqueles que crêem num falso paraíso após a morte. A faixa me lembra mais o estilo dos últimos álbuns. Uma característica do álbum são alguns rasgados mais doentios que lembram os do antigo vocalista Males Maleficarum no álbum The Coffin. Apesar da minha preferência ser pelos vocais dos clássicos mais antigos por terem aspectos mais doentios e desesperados, os vocais do novo álbum estão muito bons e enriqueceram muito com variações entre o rasgado, meio tom e gutural em todas as músicas, muitas vezes todos juntos gerando uma atmosfera avassaladora.

            Em Dissolução do Universo é impossível não lembrar de Dissection e Watain numa cadencia arrastada digna de um clássico. Enquanto a guitarra vai destilando notas sozinha o baixo faz uma base quebrada e cavalgada muito crua e bruta. É um canção diferenciada e inovadora para os padrões da banda e fecha o trabalho em grande estilo.

“ O ódio é alimentado por sua própria criação 
  O cheiro da morte está entre os homens
  A dissolução do universo é inevitável
  As pragas espalham doenças e maldição
  A morte acaba com a vida
  É o fim...”

            A música narra o inevitável, não estaremos aqui pra ver mas o universo terá seu fim quer você queira ou não. A própria ciência afirma o fim do cosmos com várias teorias diferentes. É uma questão básica do satanismo que se aplica a vida e muitos não entendem, a força destrutiva é superior a ordem.
            O Caos prevalece, sempre!
           


Deserto de Azazel






  





                                                                       




Reindo da Morte:







Tehom:







Dissolução do Universo:



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Luvart






      A banda Luvart foi formada em 1993 na cidade de Juiz de Fora – Minas Gerais, lançando a demo Killing for Religion em 94 com a sonoridade simples bem típica da época com suas limitações de gravação. Sonoridade sombria, seca, arrastada e com o vocal na linha de Passage to Arcturo (Rotting Christ), Soulside Journey (Darkthrone), característica que mudaria em seu retorno após o adormecimento em 1995 dando lugar a guturais mais brutos na linha típica do death metal dos anos 90. A demo seria relançada em 2010 pela Puta Madre Productions em formato cd junto a primeira demo Terror Stench do Coldblood. 

     É uma banda que faz pouquíssimas apresentações ao vivo, porém de grande qualidade. Soa quase como ouvindo seus materiais de estúdio.



Killing for Religion - 1994 

      



Luvart anos 90




Split cd Coldblood / Luvart



     Em 2009 Brucolaques consegue reunir mais 3 integrantes para o retorno da banda e já em 2010 conseguem fazer o resgate do trabalhalho que parou em meados dos anos 90 com a demo Bestial Devotion. Simbolicamente muito importante para o retorno da banda, aqui encontramos grande evolução na qualidade de gravação com a mudança da característica dos vocais para o gutural mais bruto. A demo conta com quatro faixas e foi lançado no formato clássico da tape de forma independente. Formação: Brucolaques - baixo, Baalmoth - vocal/guitarra, Marbas - guitarra e Blood Devastator - bateria.




Bestial Devotion - 2010
Marbas, Baalmoth, Blood Devastator e Brucolaques












    




     Mas o grande trunfo do Luvart ainda estaria por vir  em 2012 com o grande álbum Necromantical Invocation através da Hammer of Damnation consolidando a banda entre os melhores lançamentos do ano para o underground extremo nacional. Aqui fica provado o talento musical e o entendimento da banda a respeito do satanismo com entrevistas esclarecedoras como para o Revelações Abissais Zine ao qual a banda divulga no site da Pure Holocaust junto a seus materiais. Uma antiga distro de Brucolaques que agora distribui somente os materiais do Luvart. Aos interessados em adquirir os materiais originais da banda fica o contato: www.pureholocaust.loja2.com.br.

     Alerto que para quem está acostumado apenas com porradaria a banda pode soar um tanto repetitiva e cansativa, mas quem aprecia esse tipo de sonoridade pouco praticada hoje em dia irá encontrar uma mina de ouro.




Necromantical Invocation - 2012



Blood Devastator, Brucolaques e Luggal Merodach




     O álbum se inicia com uma porrada death/black energizante, são 40 segundos de pancada adentrando ao reino do caos! Mas o clima cai de repente com rifes cortantes e nos damos conta que estamos no abismo mesmo. A música é carregada tanto no ritmo quanto em energia, o clima é denso. Aquele início esmagador do álbum fica pra trás e a brutalidade ganha forma diferente. Os momentos mais rápidos agora em To the Kingdom of Chaos são os rifes cortantes que aparecem 3 vezes na música e agora finaliza o primeiro parágrafo da letra onde o pedal duplo dá um embalo cativante (An unsuccessful symbol for an inactive and impotent god/ Um símbolo fracassado para um deus inativo e impotente). Após outro parágrafo o clima cai ainda mais, dedilhado acústico a lá Dissection e um pequeno solo desolador. Os dedilhados continuam e se juntam ao peso da guitarra e baixo enquanto citam a trindade diabólica: Satanás, Lúcifer e Belial. A música se segura por um tempo em rifes abafados e pesados e novamente aparece pela ultima vez o rife cortante a qual o considero uma das partes mas cativante da música nos levando novamente a base dela que após mais um parágrafo se encerra. Uma das melhores faixas do álbum em minha opinião.
      
     Luvart que é o príncipe dos anjos negros maléficos, o demônio do pecado incerto e ocasional, sendo esta entidade pertencente à terceira ordem dos anjos caídos da primeira esfera, chamados Tronos (que significa “anciãos”) ... segundo Brucolaques em entrevista no site www.goregrinder.net (entrevista feita para o zine Blasfêmias do Espírito).

     Sobre as influências sonoras eu destacaria o Samael, seria aquela sonoridade dos clássicos do Samael com uma roupagem mais bruta, inclusive pelo vocal gutural. No Brasil a banda tem bastante influência do Murder Rape e também me lembra aqueles intervalos de pancadaria do Mystifier onde a sonoridade se torna cadenciada ou arrastada. Também vai uma pitada dos rifes mais macabros do Black Sabbath do início da carreira.
     
     A segunda faixa se inicia com um pedal duplo certeiro e rifes pesados a lá death/black cadenciado logo em seguida dando lugar aos característicos e sempre presente abafados com uma guitarra solo bem no fundo complementando o clima sombrio. Returno of the Legion se lança ao abismo com passagens arrastadíssimas e um solo bem agudo também presente. Bateria quebrada e com boas variações e viradas marcam o álbum e a faixa principalmente.

     Importante destacar também é a arte visual do encarte do álbum com todas as letras e desenhos antigos de fundo, foto da banda, tudo muito bem feito e trabalhado.

     Em seguida vem Necromagick, diferente das primeiras essa já se inicia quase parando, muito arrastada. O álbum é uma ode a morte e essa é uma das que lidam diretamente com a necromancia. A morte está sempre presente junto a conhecimentos ocultos e espiritualidade. Um verso que destaco é “A vaidade se vai com a morte” ... É algo supérfluo e atrapalha a evolução do ser que se fecha cegamente em si, certamente não é algo que você levará para a cova e seus últimos vestígios serão o paraíso dos vermes. Surpreendentemente quando se imaginava não encontrar mais passagens porradas aqui em uma das músicas mais arrastadas ela aparece novamente, bateria ganha força e a porrada come solta. Após quase um minuto a música retorna a sua origem se encerra.

     The Darkness Calls é uma letra apocalíptica e destruição de tudo que é considerado sagrado, quando as trevas tomar conta de tudo e a matéria for devorada. Isso é independente de crença pois a própria ciência afirma o fim do universo com várias teorias diferentes. A musica chega com uma cavalgada lenta, após uma queda de ritmo ela retorna com os típicos abafados e cavalgadas.

     Enfim, a faixa título ... Necromantical Invocation, nem preciso dizer sobre do que a letra se trata. Essa música me lembrou bem o antigo Profane Creation, rifes lentos, arrastados e melancólicos. Clima bem baixo astral, rifes cortantes e vocal seguindo a melodia das guitarras. Pra mim está entre as melhores do álbum. Difícil também não lembrar do Samael.

     Darkened Destiny segue o disco voltando ao arrastadão, No meio da música um momento em que surge claramente a influência dos rifes do Black Sabbath. A banda consegue juntar todas essas influências criando identidade própria com personalidade, seguindo na contra-mão da maré de hoje que normalmente vemos músicas muito rápidas e cheio de metrancas tornando as bandas muitas vezes parecidas.

     Monarchia Demonorum começa na guitarra acústica e em sequência as guitarras e o baixo intimam em um rife de arrepiar que continua em uma levada empolgante. A letra fala dos 72 espíritos presos na arca de bronze pelo rei Salomão, que levado pela vaidade e vontade de escravizar os homens teria cometido o ato. Está entre as melhores do álbum pra mim, junto a To the Kingdom of Chaos e Necromantical Invocation.

     Goddess of the Night já incia com o peso característico porém a guitarra solo dá um complemento a base seca, depois fica um bom tempo apenas com a base solo, sem os rifes pesados no fundo dando um clima mais soturno. A música mantém sempre a mesmo levada, até com um pequeno solo de guitarra, mas o peso retorna para encerrar a música. Uma que também merece destaque, a letra se refere a Lilith, como informado pela banda.

     The Ancient Ritual se caracteriza com um dedilhado acústico que além de iniciar a música, acompanha a base pesada e oca por um bom período. As guitarras cavalgam muito lentamente e os riffs se arrastam naquela escola Samael, Profane Creation. Você também encontra característica do Doom no Luvart...existem momentos muito vagarosos e de climas pesados.



    Pra encerrar com chave de ouro...Pestfera Crucis! Uma ode a Peste Negra que assolou o mundo e devastou milhares de pessoas expondo a fragilidade de nossa existência e ainda mais a dita existência de um deus piedoso que olha e protege os homens. O terror do cristianismo vendo suas preces não valerem porra nenhuma e a doença apodrecendo a sua carne. A música tem início com um piano macabro que chega no auge com um coro mais pesado ainda, as guitarras acompanham e  o andamento lembra o Murder Rape. Uma música bem quebrada e bruta e aquela cadência que não foi deixada de lado a um bom tempo no álbum, nada de bateria corrida a qual pode se contar no dedo os momentos que esteve presente no álbum. O álbum se encerra do mesmo modo que a música Pestfera Crucis iniciou, ou seja...macabro!



Rites of the Ancient Cults - 2015







               









     Acredito que o principal desafio de uma banda que lança um bom trabalho é manter a qualidade. Acontece com várias bandas, lançam um trabalho muito bom e depois não conseguem manter o mesmo pique. Que não foi o caso do Luvart, pois conseguiram evoluir mantendo a mesma pegada do trabalho anterior. A essência permanece e o que veio de novo chegou para somar agregando ao som mais técnica e qualidade. É difícil afirmar se o novo trabalho de uma banda é melhor do que anterior com pouco tempo de audição. Já precipitei em situações parecidas e depois de um tempo acabei vendo que fui levado pela empolgação da novidade e que o novo não barrava os anteriores, mas não acredito que foi o caso. A freqüência com que escuto Rites of the Ancient Cults é bem maior do que com o Necromantical Invocation e acho que agora é questão de tempo para a banda se destacar internacionalmente. Tenho certeza de que se esse material fosse gringo tava todo mundo em cima, o velho complexo do vira-lata ainda existe, mas isso tem que acabar algum dia e acho que já passou da hora visto a quantidade de bons materiais que o Brasil está produzindo e que sempre produziu. O que pode tornar esse passo mais rápido para a banda é que o álbum foi produzido pela Drakkar Productions (South American Division) que possui sua base na França.

     Houve mudança na formação que conta agora com Brucolaques vocal e guitars, Blood Devastator drums e Marbas bass e keyboards. A arte da capa, design e layout ficou por conta de Marcelo Vasco (www.p2rdesign.com) que por sinal está impecável. O álbum possui 8 faixas, sendo uma introdução. As músicas estão bem mais técnicas e com bem mais velocidade em algumas faixas. Mesmo nos momentos mais arrastados a banda está mais bruta com algumas pegadas diferentes do álbum anterior bem ah lá Necros Christos, Black Mass Desecration por exemplo.  Também encontramos mais melodias apesar do clima continuar bruto e carregado, as melodias dão um tempero especial na atmosfera da música que ganha várias passagens de teclado e órgão gerando um clima bem soturno. Esse é o diferencial de Rites of the Ancient Cults, esses instrumentos caíram muito bem nos remetendo ao Murder Rape e a escola grega.

     O trabalho se inicia com uma sinistra intro com teclados e órgão em um clima bem caótico dando a sensação de energias não criadas, onde palavras são sussurradas:

“Primeira criatura deste mundo
 Deusa draconiana das águas primordiais,
 Que precede a existência de todas as coisas
 Uma grande variedade de universo caótico
 Senhora da árvore da sabedoria.
 A chama que tudo consome
 A presença impalpável, mensageira de calamidade.
 A representação real do oculto
 Cujo silvo é a luz das trevas!”

     Vale lembrar que o album é todo em inglês e que essa foi uma tradução que fiz.

     Assim como a introdução, Thy Draconian Majest é uma ode à Tiamat. Após finalizar a intro já entra em cena a brutalidade musical bem naquela linha Slayer, Hell Awaits. Aquela levada inicial da música com aqueles abafadões em andamento mais rápido, coisa de arrepiar...furioso! Essa talvez seja a música mais porrada da banda que mesmo após uma leve cadenciada continua com um pique agitado. Existe um momento em que a velocidade cai e entra em cena aqueles riffs mais tradicionais do Luvart que ficou bem marcante e destacado do restante da musica. Thy Draconian Majesty está entre as melhores do álbum e da carreira da banda.

     At the Gloomy Sky começa numa porradaria desgraçada, esse album realmente está bem mais furioso. Depois cai pra passagens quebradas e cadenciadas, lembrando mais o estilo Necromantical Invocation. A letra é sobre a entidade Anu e seus descendentes Annuna.

     The Path of Serpents começa no mesmo ritmo arrastado que sua anterior acabou, pequenas passagens de órgão e o arrastadão segue com o peso tradicional. Essa também ficou bem característica do álbum anterior.

     Summoning the Black Light inicia com dedilhados e guitarra solo na linha do Dissection até que entra em cena o peso típico. A música evolui pra uma levada bem violenta, lembrando aquelas levadas do Necros Christos. Tem uma quebrada na música que me lembrou muito o Celebration of Supreme Evil do Murder Rape naquele clima bem sarcástico. Está entre as melhores do disco.

     Wrathful Tyrant, que energia...puta que pariu! Que riff! A música que fala de Pazuzu é daquelas músicas carregadas que passam  tanta energia furiosa quanto uma música de andamento mais violento. Uma das melhores músicas nacionais do ano. A faixa que se inicia de uma forma digna de clássicos cai pra abafadões onde o vocal gutural entra em ação, alguns momentos com aquela guitarra sem muito poderio sonoro mas que transmite uma energia desgraçada tipo Xantotol, não sei se consegui explicar muito bem mas é isso aí! Tem uma pegada bem grega no som, pegadas como Varathron marcam presença, principalmente início de carreira da banda.

     Beyond the Gates of Realms segue um misto das músicas anteriores do álbum, com passagens bem na linha do primeiro álbum e alguns riffs diferenciados que marcam esse novo trabalho. O álbum tem alguns elementos diferenciais que vão desde a pegada bruta diferente das músicas iniciais passando pelos teclados e órgãos e a velha pegada grega que assumiu papel principal nessas últimas músicas do álbum. A música é uma saudação aos Exus da Quimbanda.

     ...e Tenebris Mater vem pra selar este pacto. Da mesma pegada e qualidade que Wrathful Tyrant com uma passagem marcante de coro ela vem consolidar a qualidade de Rites of the Ancient Cults. Agora com toda segurança venho afirmar que esse trabalho superou o primeiro, sem tirar a importância de Necromantical Invocation é claro. Mas aqui a banda diminuiu a quantidade de músicas (são 3 a menos descontando a intro) e aumentou absurdamente a qualidade. A letra tratasse de Hecate, como informado pela banda após um erro de interpretação meu.


  
Book of Shadows - 2015




     Ainda em 2015 a banda lança com a mesma formação através da Misanthropic Records o 7' EP Book of Shadows, que conta com a música Under the Full Moon e o cover Symbol of Ignorance do Murder Rape.

     Fica então registrado minha visão sobre o trabalho da banda. E é isso, vejo muitos chorando uma época que nunca irá voltar e deixando assim passar despercebidas muitas bandas de qualidade. Também concordo que se olharmos o metal extremo de hoje no geral o fracasso é descarado e a decepção é certa, mas acredito que se voltarmos a atenção apenas para o que é válido e digno do verdadeiro underground...ainda estamos bem servidos!
     




Para o Reino do Caos ( To the Kingdom of Chaos - Tradução )



Destrua o que afoga os desejos do homem em uma inundação de moralidade santificadas
Que compromete as mentes com a sua doutrina repelente do pecado original
Que alimenta as mentiras com a sua fé comum e imunda
Um símbolo fracassado para um deus inativo e impotente


Introduza a grandeza da melancolia e da pureza do mal
A divindade da solidão irá expor o que é sagrado nesta terra
Para remover do mundo a monotonia da existência humana
Mostrando ao homem a sua escuridão espiritual


Salve a tríade diabólica!
Satanás - Mestre da angustia, o acusador inexorável!
Lúcifer - Mestre do fogo, o líder da luz!
Belial – Mestre da devastação, o senhor dos senhores!


Oh, senhor supremo da desolação,
Erradique  toda a bondade que suja as entranhas da terra
Consolidando o processo de ascensão da escuridão

Para governar eternamente em vigor e glória



Demo Killing for Religion - 1994
https://www.youtube.com/watch?v=cUIDdpH63Xw


Demo Bestial Devotion - 2010
https://www.youtube.com/watch?v=KCrAt0Azfqg


Necromantical Invocation - 2012
https://www.youtube.com/watch?v=7r_TUVKhB2U


Rites of the Ancient Cults - 2015
https://www.youtube.com/watch?v=8XlYkhgqCVI


7' EP Book of Shadows - 2015
https://www.youtube.com/watch?v=DgfLLYkMBC0


Por Deserto de Azazel